Home Data de criação : 08/05/12 Última atualização : 08/06/15 23:21 / 6 Artigos publicados
 

Alguém que é ficção  escrito em domingo 15 junho 2008 23:21

Ela não estava só. Mas chegou assim... Sem anéis nos dedos, com um sorriso secreto de quem devora seus pensamentos e o toma para si. Vestia preto, neutralidade implacável. Eu ali parado, assim permaneci. Meu rosto estava febril e imóvel, como se meu sangue parasse de correr por alguns segundo do meu corpo que agora estava frio.

 

O bar era simpático: mesas na calçada, propaganda de bebida nas paredes, uma grande mesa de sinuca e um garçom que não escondia se desmazelo e higiene. De tempos em tempos, o rapaz que carregava na face um bigode maior do que qualquer outra parte de seu rosto magro limpava as mãos e a bancada com um pano de prato encardido. Um dia, aquele pequeno pedaço de tecido foi branco. Eu sempre sentava lá por horas e ficava observando os rostos que pintavam aquele ambiente. Fazia anotações em um pequeno caderno e registrava muita coisa na minha memória sempre latente. Só que nunca tinha visto alguém como aquele alguém.

 

Permaneci sentado e olhava apenas com a minha visão periférica. Não ousava enfrenta-la com meus olhos. Ela foi até o balcão, fez seu pedido e sentou em uma das mesas. Trazia consigo uma bolsa vermelha de verniz e colocou sobre a mesa um maço de cigarros tirado de dentro do compartimento. Acendeu o primeiro e soltou a fumaça para o alto. Era altiva, não olhava para um só alguém. O bar todo interessava ao seu ar blasé. Neste momento, tocou seu celular. Ela diz poucas palavras e desliga. A cerveja chega. O garçom passa o pano na mesa e serve a bebida. Ela toma. Eu, como um amendoim. Ela me olha. Fico vermelho. Ela levanta e vem à minha mesa. Levanto meu rosto e dou um leve sorriso.

 

-          Posso sentar aqui?

-          Pode...

-          Espero não incomodar...

-          Não, não... Eu estou sozinho aqui.

-          Percebi. Pessoas sozinhas são atraídas por semelhantes.

 

Meu rosto sorriu sem que eu pudesse controlar. Era ela quem me deixava assim.

 

-          Você sempre fica aqui anotando?

 

Ela havia me notado sem que eu assim o quisesse. Sorri.

 

-          Anoto sim. A vida é mais interessante nas páginas de um velho caderno do que no seu momento de origem.

-          Você acha?

-          Tento me enganar que sim.

-          Boa resposta! – disse ela sorrindo.

 

Era ousadia demais pra mim. Era como um prêmio pelos meus anos de solidão e bar.

 

-          Posso perguntar uma coisa?

-          Pode – respondeu ela soltando mais uma baforada para o alto.

-          Por que você se sentou aqui?

 

Ela mudou o rosto. Sua expressão era de desconforto.

 

-          Incomodo?

-          Não, não, mesmo! É que esse seu gesto... Estou pensando...

-          Eu sentei porque não suportaria te ver escrevendo sobre mim sem te dar material para sua escrita. Não sou um personagem, mas se quiser me transformar em um, que seja da maneira mais correta.

 

Levantou-se, jogou o cigarro no chão, pisou com a ponta da bota e apagou a brasa. Segurou em meus braços, levantou-me da mesa e me deu um beijo. Sua boca macia entrava em contato com a minha barba por fazer. Sua língua dominava o universo da minha boca. Seu sabor era cerveja e cigarro, com um toque de canela. Ela segurava nos meus cabelos e apertava minha nuca com a força de seus dedos. Eu segurei nas costas desnudas pelo decote traseiro do vestido. Ela dominava. Ela me beijava. Eu só retribuía, como um escolhido, cumprindo um papel que estava gostando. O beijo finda. Ela olha nos meus olhos e sorri. Vai até a cadeira e pega a bolsa. Tira uma nota de cinco reais e deixa sobre a mesa.

 

-          Ei, qual seu nome?

-          Estela. E pode escrever que isso nunca tinha acontecido antes na sua vida.

 

E saiu. 

  

 

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... e o futuro do jornalismo?  escrito em quarta 21 maio 2008 06:14

... e o futuro do jornalismo?

 

Este texto foi escrito, reescrito e teve inúmeras palavras deletadas durante a sua criação e, felizmente, espero que ainda necessite de revisões. A construção da história também recebe este colorido. Os fatos acontecem e repercutem no mundo com a velocidade absurda de alguns segundos através de uma postagem na Internet. Em outros tempos as notícias circulavam em papiros, pergaminhos, folhas de aviso, e ainda não tinham o caráter sensacionalista de hoje, que alguns jornais adotam.

 

Com o passar do tempo, os donos dos jornais perceberam que notícia também dava lucro, que era uma máquina que movimentaria dinheiro a partir do seu poder de construção e de descontrução de realidades e verdades. Não foi exatamente o uso deste poder que motivou o antológico personagem tão bem construído por Orson Wells em Cidadão Kane e livremente inspirado em William R. Hearst?

 

Para quem não se recorda, Hearst foi proprietário do Nem York Journal e a partir de fotografias falsas publicadas nas edições do diário, os Estados Unidos entrou em conflito com Cuba pelo domínio do território. Mas, voltemos ao Brasil.

 

O Crime da Mala, Receitas ou sonetos de Camões publicados no espaço dos textos censurados, a morte de Wladmir Herzog, o Edifício Joelma, o caso PC Farias, o crime da Rua Cuba, a Escola Base, a copa do mundo que estampou na história cinco vitórias do nosso país, além dos escândalos políticos, econômicos e sexuais de senadores e celebridades. No momento atual, uma pergunta movimenta a mídia: quem matou Isabella?

 

Até agora conhecemos sobre um pouco do passado e do presente da Imprensa no Brasil e no mundo. E quanto ao futuro? Otávio Frias Filho, proprietário de jornal e em quase nada parecido com Hearst, disse que não sabe sobre o futuro. E quem sabe, não é mesmo? Se ele que é proprietário de um jornal não pode responder, imagina os jornalistas que ingressam em um mercado de trabalho? A assessoria de imprensa tem recebido jornalistas aos montes e a redação está mais vazia. Segundo a jornalista Marilena Furlanetto, qualquer um hoje em dia pode ser jornalista, é só postar um texto na Internet. Será que este é o futuro?

De um lado encontramos os jornais exigindo uma qualificação ampliada do profissional para a sua contração e de outro qualquer um que senta diante de um computador pode modificar a realidade postando notícias. Mas, insisto, qual será o futuro?

Se nem Frias pôde responder, não serei eu o atrevido que irei tentar!

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Dias de Helenice  escrito em quinta 15 maio 2008 05:39

Terça-feira

 

Hoje eu acordei e meus olhos não abriram. Fiquei deitada na cama com um desejo de silêncio... mas era impossível. Meu corpo rangia a cada movimento, pensado ou impensado. Com isso, cheguei a constatar que não existe algo sem som, que o mundo continua em movimento enquanto sinto que meu corpo vai cessando aos poucos. Abro os olhos.

 

Com um impulso de ânimo, sento-me na cama: o que o dia me reserva? Passo a mão nos cabelos e sinto que está quebradiço, preciso comprar um shampoo. Trago as minhas pernas com o auxílio das mãos até um canto da cama para descer. Olho para cada parte que compõe o meu todo, dando uma atenção especial às pernas, meu contato com o chão. Fico balançando os pés como se estivesse na beira de uma piscina. O vento balança a cortina de voal na janela e eu sinto que o dia vai ser bom. Dou um leve sorriso e olho para a cama que agora está vazia, mas antes, tinha o calor do meu marido. Hoje ele saiu sem falar comigo, o que será que eu fiz? Talvez nada, talvez tenha se atrasado. Desço da cama e sinto meus pés tocando o chinelo que estava ali, a noite toda esperando o momento de ser calçado. Acomodo meus pés na sola fria... Parece que estou redescobrindo a vida a cada segundo. Olho no espelho: fazia tempo que eu não me via assim. Crio um novo hábito: maquiagem. Pego o primeiro batom que vejo e me nego a sair do quarto sem estar apresentável a mim mesma. Pego na segunda gaveta uma escova de grande volume, passo sobre meus cabelos como se estivesse me acalentando na manhã. É assim que começa meu dia de hoje.

 

Um abajur é aceso para que eu pudesse pintar levemente meus olhos. Escolho um par de brincos, aquele que eu ganhei de aniversário de casamento. Decido que preciso me sentir leve, usar uma roupa que fosse parecida com minha camisola. Escolho um vestido de florzinhas que adoro. Retiro o pijama como se tirasse um pedaço da minha capa e estou nua. Meu corpo, um retrato da minha história. Toco meu pescoço e sinto o vento bater no meu corpo sem couraça. Visto a minha nova roupagem e saio do quarto.

 

Minhas pernas são comandadas por mim e eu digo se vão para a direita ou esquerda. Escolho não apoiar em nada, vou lentamente saindo da porta e descendo a escada. Recuso o corrimão. No último degrau, meu cachorro vem em minha direção, ele não me reconhece. Talvez seja exagero para uma manhã de terça-feira, mas eu precisava disso. Ele lambe meus dedos no vão do chinelo. Sinto sua língua quente... é como se estivesse aprendendo os prazeres, descobrindo novos sentidos. Passo a mão em sua cabeça e vou para a cozinha. Espreguiço como uma guerreira antes de entrar em combate.

 

Olho pela janela... um beija-flor está bebendo água... preciso colocar mais açúcar. Decido que minha primeira tarefa é cuidar dos animais: água pro beija-flor, pão para o cachorro. Abro a porta da cozinha e fico assistindo meu cão comer, por minutos incalculados. Nem sabia como ele comia. Passo a mão no meu peito e fecho os olhos. Uma música suave surge de mim: meu peito bate e eu adormeço na cadeira ouvindo meu próprio som, escavando neste segundo um retrato de quem sou. Dou um leve sorriso que indica a minha cumplicidade e desvelamento. Massageio o meu peito e digo em voz alta: “Bom dia, Helenice, a terça-feira está inaugurada!”.

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Nem tudo é verdade  escrito em quinta 15 maio 2008 05:28

A premissa deste texto é a fantasia. Ao escrever neste espaço, faço uso das minhas experiências pessoais e agrego a literatura e a criação. Por isso, gostaria de deixar claro que nem tudo o que é escrito aqui é a verdade.

Utilizo-me da palavra como fonte, e da escrita como meio. As histórias relatadas aqui são fatos que eu vivi ou não, alimentados pela fantasias e pelo desejo de algo melhor acabado.

Já que no campo da realidade determinadas situações não tiveram desfechos oportunos, uso do dedo e do teclado para corrigir tal falha trágica. Se essa correção é verossímil, não posso garantir. Garanto que ao transcorrer de um texto, o leitor é alguém que constrói este universo de sonho que um texto sugere.

Bem, a intenção não é nenhum tratado sobre a “imaginação criativa”, mas só um esclarecimento sobre o que já foi escrito neste blog e do muito que ainda virá!


Boa viagem!

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Cicatrizes  escrito em quarta 14 maio 2008 06:05

Hoje, voltando para casa depois de uma palestra do Otávio Frias Filho, o “bam bam bam” da “Folha de S.Paulo”, tive uma conversa bastante ilustrativa com um rapaz que vem na Van comigo. Falávamos de acidentes da infância ou da adolescência, coisas que nos deixam marcas. Ele contava os inúmeros eventos que viveu e partes do corpo que perdeu com  as histórias.

Dentro deste contexto, pensei um pouco sobre mim e voltei na minha infância: marcas de quando caí na terra, um dedo quebrado no jogo de handebol, um prego na mão – resultado de um esconde-esconde em um apartamento em reforma. Foram pequenos sinais pra uma vida vivida em meio a conversar, livros e fitas cassetes gravadas.

Acho que pequenas marcas são construídas todos os dias em nós mesmos, mas não paramos para pensar sobre.

Quando conheço alguém, entrego em suas mãos um punhal imaginário. Com ele, uma fenda é aberta em qualquer parte do corpo. Tem gente que nos apunha-la pelo braço, nos pedindo sempre um pouco do nosso sangue, do nosso trabalho ou ainda, do nosso afago. Outras tantas nos pegam pelo estômago através de guloseimas que não paramos de devorar. Existem aquelas que fisgam pelo olhar, nos fazendo refém de sempre querer vê-las. Há outras que nos marcam no coração... Para essas, o amor é certeiro e incondicional.

Estou esfacelado de feridas... aquelas que terminam bem, deixam marcas sadias e felizes, que gosto sempre de lembrar. Já as que nos machucam, nos motivam em um dia frio como esse, a prática da lágrima. Uma canção toca, o frio acalenta e a lágrima escorre sem ser barrada, como uma memória em forma d’água, cicatrizes ao vento.   

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