Ela não estava só. Mas chegou assim... Sem anéis nos dedos, com um sorriso secreto de quem devora seus pensamentos e o toma para si. Vestia preto, neutralidade implacável. Eu ali parado, assim permaneci. Meu rosto estava febril e imóvel, como se meu sangue parasse de correr por alguns segundo do meu corpo que agora estava frio.
O bar era simpático: mesas na calçada, propaganda de bebida nas paredes, uma grande mesa de sinuca e um garçom que não escondia se desmazelo e higiene. De tempos em tempos, o rapaz que carregava na face um bigode maior do que qualquer outra parte de seu rosto magro limpava as mãos e a bancada com um pano de prato encardido. Um dia, aquele pequeno pedaço de tecido foi branco. Eu sempre sentava lá por horas e ficava observando os rostos que pintavam aquele ambiente. Fazia anotações em um pequeno caderno e registrava muita coisa na minha memória sempre latente. Só que nunca tinha visto alguém como aquele alguém.
Permaneci sentado e olhava apenas com a minha visão periférica. Não ousava enfrenta-la com meus olhos. Ela foi até o balcão, fez seu pedido e sentou em uma das mesas. Trazia consigo uma bolsa vermelha de verniz e colocou sobre a mesa um maço de cigarros tirado de dentro do compartimento. Acendeu o primeiro e soltou a fumaça para o alto. Era altiva, não olhava para um só alguém. O bar todo interessava ao seu ar blasé. Neste momento, tocou seu celular. Ela diz poucas palavras e desliga. A cerveja chega. O garçom passa o pano na mesa e serve a bebida. Ela toma. Eu, como um amendoim. Ela me olha. Fico vermelho. Ela levanta e vem à minha mesa. Levanto meu rosto e dou um leve sorriso.
- Posso sentar aqui?
- Pode...
- Espero não incomodar...
- Não, não... Eu estou sozinho aqui.
- Percebi. Pessoas sozinhas são atraídas por semelhantes.
Meu rosto sorriu sem que eu pudesse controlar. Era ela quem me deixava assim.
- Você sempre fica aqui anotando?
Ela havia me notado sem que eu assim o quisesse. Sorri.
- Anoto sim. A vida é mais interessante nas páginas de um velho caderno do que no seu momento de origem.
- Você acha?
- Tento me enganar que sim.
- Boa resposta! – disse ela sorrindo.
Era ousadia demais pra mim. Era como um prêmio pelos meus anos de solidão e bar.
- Posso perguntar uma coisa?
- Pode – respondeu ela soltando mais uma baforada para o alto.
- Por que você se sentou aqui?
Ela mudou o rosto. Sua expressão era de desconforto.
- Incomodo?
- Não, não, mesmo! É que esse seu gesto... Estou pensando...
- Eu sentei porque não suportaria te ver escrevendo sobre mim sem te dar material para sua escrita. Não sou um personagem, mas se quiser me transformar em um, que seja da maneira mais correta.
Levantou-se, jogou o cigarro no chão, pisou com a ponta da bota e apagou a brasa. Segurou em meus braços, levantou-me da mesa e me deu um beijo. Sua boca macia entrava em contato com a minha barba por fazer. Sua língua dominava o universo da minha boca. Seu sabor era cerveja e cigarro, com um toque de canela. Ela segurava nos meus cabelos e apertava minha nuca com a força de seus dedos. Eu segurei nas costas desnudas pelo decote traseiro do vestido. Ela dominava. Ela me beijava. Eu só retribuía, como um escolhido, cumprindo um papel que estava gostando. O beijo finda. Ela olha nos meus olhos e sorri. Vai até a cadeira e pega a bolsa. Tira uma nota de cinco reais e deixa sobre a mesa.
- Ei, qual seu nome?
- Estela. E pode escrever que isso nunca tinha acontecido antes na sua vida.
E saiu.

