Hoje, voltando para casa depois de uma palestra do Otávio Frias Filho, o “bam bam bam” da “Folha de S.Paulo”, tive uma conversa bastante ilustrativa com um rapaz que vem na Van comigo. Falávamos de acidentes da infância ou da adolescência, coisas que nos deixam marcas. Ele contava os inúmeros eventos que viveu e partes do corpo que perdeu com as histórias.
Dentro deste contexto, pensei um pouco sobre mim e voltei na minha infância: marcas de quando caí na terra, um dedo quebrado no jogo de handebol, um prego na mão – resultado de um esconde-esconde em um apartamento em reforma. Foram pequenos sinais pra uma vida vivida em meio a conversar, livros e fitas cassetes gravadas.
Acho que pequenas marcas são construídas todos os dias em nós mesmos, mas não paramos para pensar sobre.
Quando conheço alguém, entrego em suas mãos um punhal imaginário. Com ele, uma fenda é aberta em qualquer parte do corpo. Tem gente que nos apunha-la pelo braço, nos pedindo sempre um pouco do nosso sangue, do nosso trabalho ou ainda, do nosso afago. Outras tantas nos pegam pelo estômago através de guloseimas que não paramos de devorar. Existem aquelas que fisgam pelo olhar, nos fazendo refém de sempre querer vê-las. Há outras que nos marcam no coração... Para essas, o amor é certeiro e incondicional.
Estou esfacelado de feridas... aquelas que terminam bem, deixam marcas sadias e felizes, que gosto sempre de lembrar. Já as que nos machucam, nos motivam em um dia frio como esse, a prática da lágrima. Uma canção toca, o frio acalenta e a lágrima escorre sem ser barrada, como uma memória em forma d’água, cicatrizes ao vento.

André Rovani
Seg 07 Jul 2008 14:47