Terça-feira
Hoje eu acordei e meus olhos não abriram. Fiquei deitada na cama com um desejo de silêncio... mas era impossível. Meu corpo rangia a cada movimento, pensado ou impensado. Com isso, cheguei a constatar que não existe algo sem som, que o mundo continua em movimento enquanto sinto que meu corpo vai cessando aos poucos. Abro os olhos.
Com um impulso de ânimo, sento-me na cama: o que o dia me reserva? Passo a mão nos cabelos e sinto que está quebradiço, preciso comprar um shampoo. Trago as minhas pernas com o auxílio das mãos até um canto da cama para descer. Olho para cada parte que compõe o meu todo, dando uma atenção especial às pernas, meu contato com o chão. Fico balançando os pés como se estivesse na beira de uma piscina. O vento balança a cortina de voal na janela e eu sinto que o dia vai ser bom. Dou um leve sorriso e olho para a cama que agora está vazia, mas antes, tinha o calor do meu marido. Hoje ele saiu sem falar comigo, o que será que eu fiz? Talvez nada, talvez tenha se atrasado. Desço da cama e sinto meus pés tocando o chinelo que estava ali, a noite toda esperando o momento de ser calçado. Acomodo meus pés na sola fria... Parece que estou redescobrindo a vida a cada segundo. Olho no espelho: fazia tempo que eu não me via assim. Crio um novo hábito: maquiagem. Pego o primeiro batom que vejo e me nego a sair do quarto sem estar apresentável a mim mesma. Pego na segunda gaveta uma escova de grande volume, passo sobre meus cabelos como se estivesse me acalentando na manhã. É assim que começa meu dia de hoje.
Um abajur é aceso para que eu pudesse pintar levemente meus olhos. Escolho um par de brincos, aquele que eu ganhei de aniversário de casamento. Decido que preciso me sentir leve, usar uma roupa que fosse parecida com minha camisola. Escolho um vestido de florzinhas que adoro. Retiro o pijama como se tirasse um pedaço da minha capa e estou nua. Meu corpo, um retrato da minha história. Toco meu pescoço e sinto o vento bater no meu corpo sem couraça. Visto a minha nova roupagem e saio do quarto.
Minhas pernas são comandadas por mim e eu digo se vão para a direita ou esquerda. Escolho não apoiar em nada, vou lentamente saindo da porta e descendo a escada. Recuso o corrimão. No último degrau, meu cachorro vem em minha direção, ele não me reconhece. Talvez seja exagero para uma manhã de terça-feira, mas eu precisava disso. Ele lambe meus dedos no vão do chinelo. Sinto sua língua quente... é como se estivesse aprendendo os prazeres, descobrindo novos sentidos. Passo a mão em sua cabeça e vou para a cozinha. Espreguiço como uma guerreira antes de entrar em combate.
Olho pela janela... um beija-flor está bebendo água... preciso colocar mais açúcar. Decido que minha primeira tarefa é cuidar dos animais: água pro beija-flor, pão para o cachorro. Abro a porta da cozinha e fico assistindo meu cão comer, por minutos incalculados. Nem sabia como ele comia. Passo a mão no meu peito e fecho os olhos. Uma música suave surge de mim: meu peito bate e eu adormeço na cadeira ouvindo meu próprio som, escavando neste segundo um retrato de quem sou. Dou um leve sorriso que indica a minha cumplicidade e desvelamento. Massageio o meu peito e digo em voz alta: “Bom dia, Helenice, a terça-feira está inaugurada!”.
Marceli
Sáb 17 Mai 2008 18:45